Um chá no deserto
Uma história de amor contada de uma forma completamente diferente das que estamos acostumados a ver. Casados há 10 anos, Port Moresby (John Malkovich) e Kit Moresby (Debra Winger) passam por uma crise conjugal. Vivem no mundo, sem destino específico ou data para voltar. Como alerta a narração em off, realizada por Paul Bowles, autor do livro que deu origem ao roteiro: “o casal cometeu o erro de guerrear contra o tempo”. Apesar da aparição da voz do escritor em alguns momentos do filme, o diretor Bernardo Bertolucci, não comete o pecado fundamental de aceitar o caminho fácil, narrando uma história literária de maneira literal. O céu que nos protege é um filme essencialmente cinematográfico.
O casal de americanos manteve o estilo de vida dos pássaros, sem lar, viajando sem propósito, sem chão ou família constituída, uma vida errante e extraordinária. George Tunner (Campbell Scott), é um convidado impertinente do casal na viagem, e percebe uma crise entre Port e Kit, aproveitando-se para chegar perto de Kit. Enquanto isso Port Moresby já se jogou no mundo, afoito por vivenciar uma experiência mais profunda do que o mero “turismo”, ele adentra nas ruas da cidade levado por um nativo. Port mostra que sabe o que está fazendo quando adentra na tenda de uma prostituta. Ela tenta rouba-lo e ele “rouba” de volta a própria carteira sem que ela perceba. Port, mostra-se assim, um homem escolado, experiente nos perigos e mistérios das terras estrangeiras.
Conforme prossegue a trama o casal distancia-se mais e mais, chegando ao ponto da total distanciação, quando viajam separados. Cada um em sua odisséia humana individual.
“Mesmo sem saber que sabe”, Port desconfia que seu convidado, George Tunner, está interferindo na relação conjugal com Kit, e realmente está. George não os deixa um minuto a sós e atrapalha todos os momentos íntimos do casal.
George segue para uma viagem solitária, muito provavelmente contra a própria vontade. Port usa esse tempo para ficar a sós com sua esposa, para conhecê-la novamente e compreender mais uma vez o poder do companheirismo, desgastado pelo tempo de convivência, pela rotina, pelo peso dos anos. Cobertos sob o imenso sol do deserto inóspito, experimentam o mesmo amor que os uniu. Dizem que no amor estamos completamente desprotegidos e expostos, Port e Kit estão protegidos, dessa vez, pelo elo espiritual que ainda existe entre os dois. Este momento de calmaria é apenas o prelúdio para a tempestade prestes a chegar. Um acontecimento fatal e inesperado muda totalmente a vida de Kit, transformando não apenas a história, mas a forma de se contar a história. O diretor Bernardo Bertolluci e sua equipe de filmagem cometem uma façanha cinematográfica, gravam cenas incríveis dentro do mais profundo e rebelde deserto, sob cenários enormes, e sobre muros de verdade, pessoas estrangeiras, outra língua, trepassam todas as dificuldades de se filmar longe de um estúdio, em um país estrangeiro, e conseguem um resultado belíssimo.
Kit é jogada em um mundo desconhecido e se vê perdida no sol escandante, na árida poeira. Não há mais intimidade, não há nada reconhecível, há apenas uma vida exótica que poderá trazer o riso de volta ao seu rosto, mas não será o suficiente. Kit perdeu algo perturbadoramente essencial em sua vida, o amor de Port. Ela está perdida para sempre. Mesmo depois de resgatada, não se encontra mais nem quando está de volta ao local de onde veio. Está destinada a ser uma viajante.
O Céu Que Nos Protege (The Sheltering sky, 138 min), de Bernardo Bertolucci


