Minha relação com o Paraná

2009 Maio 27
by Gustavo
Eu e uma DVX100, a câmera que usavamos para fazer os curtas da AIC
Eu e uma DVX100, a câmera que usavamos para fazer os curtas da AIC
Nunca cogitei na minha vida a possibilidade de um dia visitar Curitiba, quanto mais morar lá por um ano (foi o que eu fiz em 2005). Eu estava prestes a sair de casa, na época me sentia perdido na vida, acabara de abandonar a faculdade de publicidade e estava decidido a estudar circo em uma escola do Rio de Janeiro. Foi quando uma amiga do MSN me falou sobre uma escola de cinema recém inaugurada em Curitiba, a Academia Internacional de Cinema (AIC www.aicinema.com.br ). Fundada por Steven Ritcher, um americano casado com a brasileira Flávia Rocha, a escola prometia um método didática diferente de qualquer outra instituição de ensino. A AIC tinha um site bem simples na época, com depoimentos dos alunos do primeiro semestre (fora inaugurada em Julho de 2004). Parecia ser o meu sonho concretizado, eu já tinha me envolvido com cinema em Brasília, mas nunca pensei em levar isso a sério, tinha o cinema como uma brincadeira, um hobby. “Me profissionalizar vai tirar a graça da brincadeira”, pensava na minha eterna teimosia de assumir as responsabilidades e consequências de ir atrás do que eu amo. Milena Celli, esse era o nome da amiga de MSN que me falou sobre a AIC, e devo a ela muita coisa, porque no primeiro semestre de 2005 eu estava lá em Curitiba de mala e cuia procurando um lugar para morar.
Eu em um dia de ócio na AIC

Eu em um dia de ócio na AIC

Me lembro da despedida, aqui em Brasília em fevereiro de 2005. Meus pais chorando na janela do ônibus e eu percebendo que dalí para frente minha vida mudaria completamente, chorei também e aprendi a valorizar a importância dos entes queridos, afinal, depois disso eu passaria dois anos morando sozinho, experimento como nunca antes, o lado bom e o lado ruim da solidão. Em Curitiba eu estudei cinema, eu respirava cinema. Escrevia constamente em um caderno de anotações, e ganhei um fascínio pela arte da ficção. Tornei-me um ficcionista quando abri meu blog www.cineasta81.blogspot.com, onde escrevia contos ficcionais, entre outras coisas, amadureci meu estilo lá e ganhei muitos leitores e comentários motivadores. Enquanto assistia filmes, aulas e palestras, fazia 4 curtas por semestre, a maioria deles erros tremendos que mereciam ir para o lixo, mas um deles, que escrevi, produzi e editei valeu a pena todo o esforço, o curta-metragem Joka Humberto e uma permuta. Filmamos tudo numa cidadezinha do interior do Paraná e foi inesquecível, até hoje somos elogiados por quem assiste o filme, mas esta experimentação, apesar de seu ótimo resultado, nunca foi enviado para concorrer em nenhum festival de cinema, a própria AIC não fez questão disso e o filme ficou no limbo, apenas uma lembrança na memória dos realizadores.

Pessoal da Caravana do Arco Iris. Uma caravana de artistas itinerantes de várias nacionalidades que roda pela america latina. Registramos isso tudo em um documentário dirigido por André Pelicciota, e produzido por mim, pela AIC.

Pessoal da Caravana do Arco Iris. Uma caravana de artistas itinerantes de várias nacionalidades que roda pela america latina. Registramos isso tudo em um documentário dirigido por André Pelicciota, e produzido por mim, pela AIC.

Em Curitiba eu jogava basquete todos os dias numa quadra imensa, de frente para o shopping Curitiba, escapava das chuvas pelas ruas traiçoeiras, cheias de protuberâncias, me apaixonei e me desiludi por uma garota, passei fome, trabalhei como palhaço ( fazendo jus a minha decisão inicial de estudar circo no Rio de Janeiro que nunca foi levada a cabo ), trabalhei no bar Jokers, também como palhaço, comprei roupas de brechó, aprendi os fundamentos do break dance. Eu acompanhava rodas de break semanalmente debaixo do shopping Itália. Era fantástico, eu passava a semana inteira esperando para assistir os confrontos de dança entre a galera underground. E lá o movimento era muito forte. Conhecí os integrantes da banda Wandula, e cheguei a pesquisar a possibilidade de gravar um clipe com eles, que infelizmente nunca foi realizado (ainda devo essa a vocês). Em Curitiba eu fiz amigos, aprendi o que significa distância, entendi que se você não tem persistência pode desperdiçar as oportunidades da sua vida só porque está passando um momento ruim (toda a dureza valeu a pena e continua surtindo efeitos na minha vida) e morei em um pensionato onde acontecia de tudo: Festas, brigas, encontros no meio da madrugada, cerveja, assaltos a geladeira, assaltos de verdade, choro, riso e tédio.

Depois, fui embora de Curitiba. A AIC estava fechando suas portas no Paraná para abrir sede em São Paulo, eu acompanhei a empreitada morando o ano de 2006 na capital paulista.

Apesar do friozinho congelante de Curitiba, eu senti muitas saudades das ruas, da feira, do Largo da Ordem, da rua João Negrão, do aspecto alemão de algumas construções, como da fábrica de chá matte, das noites malucas em que eu saia para beber com os amigos do pensionato ou da AIC, das aventuras na tentativa de fazer cinema (quebrando a cara na maioria das vezes), de toda a bagunça. Ficou para trás aquele tempo estranho e bonito. Tempo no qual eu emagrecí, cheguei a perder 7KG, e quando fui pra Vitória passar férias na casa da minha avó, engordei tudo de novo e um pouco mais. Ficou pra trás.

Eu no sofá da AIC em Curitiba. Emagreci 7 KG quando dormia lá. A ansiedade me impedia de dormir bem, eu aproveitava os intervalos pra tirar um sono.

Eu no sofá da AIC em Curitiba. Emagreci 7 KG quando dormia lá. A ansiedade me impedia de dormir bem, eu aproveitava os intervalos pra tirar um sono.

Hoje são 27 de maio de 2009, e eu ainda não abandonei o cinema pelo qual me apaixonei em Curitiba. Talvez, se num momento de dureza eu tivesse abandonado o curso, hoje em dia o cinema seria motivo de riso, ou de tristeza, mas me orgulho de dizer que mantenho minha paixão, minha vontade de fazer filmes, e minha produção, por maiores que sejam os problemas, acontecem, sempre de forma independente. Um legado que Curitiba cravou na minha alma. Afinal, foi lá que aprendi a gostar do cineasta russo Andrei Tarkovski. Foi esse cineasta, em seu livro Esculpir o tempo, que me ensinou que o cinema não é mero entretenimento, o cinema pode significar muito mais. O cinema pode ser a sua fé. O cinema pode ser o significado de uma vida, e isso não quer dizer futilidade, o cinema pode ser maior que a vida, em seu significado, em sua execução. Eu passei a respeitar profundamente essa arte, este ofício, esta profissão, esta escolha. Não era apenas por diversão que eu estava alí, era por algo maior. Me lembro também que foi em Curitiba, dentro do meu quarto, que eu lí a frase mais poderosa e contundente da minha vida, que também tinha a ver com os motivos da minha busca, do meu aprendizado:

Coelum non animum mutant qui trans mare currant  ( Os que atravessam o mar mudam o céu acima deles mas não as suas almas ) - Horácio

 

A simples leitura dessa frase (a encontrei por puro acaso), por mais trivial que possa parecer, me fez compreender todo o motivo da minha viagem, da minha fuga, da minha busca. Quando eu sai de Brasília, eu queria me modificar como pessoa. Queria me transformar em outra pessoa. Viajei, fugi de mim mesmo acreditando que deixaria tudo para trás. Mas como escapar da própria sombra? Anikulapo é uma palavra nigeriana que significa: “Carrego a morte no meu bolso”. Eu sou Gustavo Anikulapo, carrego comigo a morte, e dela não tento escapar. A morte, a pessoa que sou, é meu fardo, é minha sina, e dela não tento mais fugir. Aceito-a, carrego bem acomodada até o dia que o tempo decida: “É hora de sair da mala, de consumir o seu proprietário”. Eu sou quem sou, posso mudar o céu acima de mim mesmo, mas nunca a minha alma. Eu sou quem sou, e procuro ser bom, ter fé.

Adeus Curitiba, Paraná (dezembro de 2005).

Quadrinhos do personagem de Maurício de Souza, Horácio. Inspirado no filósofo Horácio.

Quadrinhos do personagem de Maurício de Souza, Horácio. Inspirado no filósofo Horácio.

A minha aventura existencial me trouxe aqui, de volta a Brasília. Trabalhando na redação do Correio Braziliense, no caderno de Cultura, o tempo estava escasso por conta dos acertos finais para a minha monografia. Resolvi então sair de lá, e mandei um e-mail para uma oportunida de trabalho em outro local. Semanas depois me chamaram, era o pessoal da Secretaria de representação do Paraná em Brasília. Vejam só, na entrevista de contratação, senti uma amizade instantânea, um sentimento de familiaridade com todos que estavam alí, por mais que não fossem nascidos no Paraná, me senti em casa. E cá estou eu. Hoje registrei a inauguração oficial da secretaria, andando com uma câmera no braço o dia inteiro. Eu carreguei essa bebezinha, com sua potência em mini DV (muitos cineastas desprezam), suas lentes aguçadas, para registrar um evento que de cinema não tem nada, mas a habilidade de registrar, o meu interesse pelas pessoas, por fotografar suas almas e seus corpos em movimento, nasceu em Curitiba e se desenvolveu ao longo do percurso da vida. Fazem apenas cinco anos desde que tudo começou, e rende frutos até hoje, espero que para o resto de minha vida.

Primeiro dia no meu trabalho na Secretaria de representação do Paraná em Brasília
Primeiro dia no meu trabalho na Secretaria de representação do Paraná em Brasília

 

Alguns videos realizados em curitiba disponíveis no youtube:

Guerreiros do arco-íris

Noturna

Joka Humberto e uma permuta

Uma resposta leave one →
  1. 2009 Outubro 23

    emoção grande te ler. agraciada.

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