Lavoura Arcaica

2009 Maio 20
by Gustavo

(se não viu o filme, não leia)

Cena do filme Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho

Cena do filme Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho

 

 

Fiquei inebriado pela beleza das imagens e da música; pela ousadia estética de escapar do lugar comum, de encontrar planos muitas vezes subjetivos para que o espectador vá caçando pedaços e montando a história em sua própria cabeça a partir de fragmentos. No entanto, isso, que muitas vezes é uma qualidade, outras vezes é um problema. O esforço para interpretar o filme atrapalha a compreensão, torna-se enfadonho. O filme fica pesado não pelo conteúdo agressivo e dilacerante da história, mas pela necessidade constante de assimilação interpretação. O cineasta não se preocupa com a didática, isso é tanto uma vantagem, como uma desvantagem. Confesso que no início do filme lutei muito contra ele. Eu assistia já com a necessidade de criticar, de encontrar defeitos. Achei muitas interpretações e muitas vozes em off completamente desnecessárias ou forçadas demais. O tom choroso da voz de Selton Mello me pareceu extremamente teatral em alguns momentos. Acontece que a narrativa forte, o roteiro impactante nascido a partir do livro de Raduan Nassar, inspirado na história bíblica do filho pródigo, arrebatou minhas emoções. Basicamente a trama se resume da seguinte forma: André vive em uma casa de costumes repressivos. Ele sofre por dois motivos, suas vontades (amar e ser livre) são incompatíveis com os desejos conservadores de seu pai. Ele apaixona-se pela irmã e o relacionamento incestuoso o leva ao desespero. Após sofrer uma rejeição dela, não há mais nada que o integre na unidade familiar, tão prezada pelo pai. Até mesmo o amor que ele tem pelos irmãos, pela mãe, pela vida tranquila, esmorece e ele se vê obrigado a partir. A partida é rápida. O primogênito da casa é enviado pela mãe para encontra-lo e traze-lo de volta ao lar. A história se desenrola com calma, o tempo para que as revelações aconteçam é adequado e perfeito para a fluência. E após o retorno de André a sua casa, os irmãos e o pai se revelam personagens ainda maiores do que aparentavam. O momento em que André está na casa procurando por sua irmã e tudo está vazio, a montagem paralela com a infância e a captura do pombo através de uma armadilha, enquanto ele comete o ato de incesto que o levará para longe,  é muito poético e cinematográfico. Escapa da característica literária e teatral presente em certos momentos da obra, torna-se cinema de verdade. A cena é bela como poucas vezes se viu no cinema.

Da metade para o final do filme eu pude me entregar para aceitar tudo o que era mostrado. A partir da história do faminto passei a assistir com voracidade.A parábola (dentro da parábola) quebra a linguagem recorrente do filme, e é o momento para que você descanse. Quando ocorre a retomada do ritmo original do filme você já está acostumado com a narrativa diferenciada e pode acompanhar o resto do filme com mais tranquilidade. O choque estético é natural, e benéfico no que se refere a renovação do cinema. Mas é difícil de ser aceito enquanto você não tem uma base de comparação, enquanto não tem a oportunidade de por o pé no chão, sua impressão é de que tudo aquilo pode ser apenas um grande delírio do cineasta (neste caso, ainda bem, não é apenas um delírio, tudo tem seu devido lugar). A parábola do faminto é o momento ideal para que se aceite o restante da história.

Apesar de não se tratar do melhor filme brasileiro, como exageram alguns, é uma obra grandiosa e sem precedentes. Não será esquecido.

Título original: Lavoura Arcaica
Diretor: Luiz Fernando Carvalho
Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Caio Blat
Gênero: Drama
Duração: 163 min
Ano: 2001
Cor: Colorido
Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos
País: Brasil

Lavoura Arcaica (2001, 163 min) de Luiz Fernando Carvalho. Fotografia de Walter Carvalho.
Elenco: Selton Mello, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Caio Blat

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