Palavras cruzadas

2009 Janeiro 8
by Gustavo
Will Shortz, autor das palavras cruzadas do New York Times com diploma em enigmista pela ersidade de Indiana, nos Estados Unidos.Ajuda diariamente a alimentar o vicio de 50 milhões de americanos por palavras cruzadas.

Will Shortz, autor das palavras cruzadas do New York Times com diploma em enigmista pela universidade de Indiana, nos Estados Unidos.Ajuda diariamente a alimentar o vício de 50 milhões de americanos por palavras cruzadas.

Para resolver bem as palavras cruzadas você precisa conhecer assuntos clássicos e precisa conhecer os assuntos modernos. Sua mente precisa ser flexível e ajuda se tiver senso de humor.
- Will Shortz

Mais um dia de trabalho no pai dos jornais de Brasília, o Correio Braziliense. Um trabalho que não para, afinal, todo dia tem um miserável que morre baleado, tem uma dona de casa atropelada, um santo com uma colheita premiada, tem gente esperando fila no aeroporto, tem político dando cano, uma peça de teatro. Todo dia tem notícia. O jornalista fica com a sensação de que sem ele o dia não pode acordar. Se a prensa não rodar, se o jornal não sair, como vai amanhecer o dia? Por isso tem muito jornalista que se acha o galo no direito de cacarejar com a sensação de poder que tem na mão. Mas será que o povo lê mesmo o jornal? Será que a Dona Maria está interessada no pagamento extra para cargos de chefia aprovado pela câmara? Será que o Augusto, aposentado há cinco anos está interessado na queda da bovespa? A verdade é que o jornalista escreve dia após dia e a palavra vai para um saco de lixo, vira cobertor de mendigo, limpa bosta do cachorro. A palavra jornalística tem valor por um tempo curtinho, 24 horas, ou menos. Só tem quatro pessoas que lêem notícia do jornal: O dono do jornal, o jornalista, o personagem da notícia e o alvo da notícia. O que vende o jornal não é o jornalismo, é a seção de anúncios, é o roteiro cultural, e acima de tudo: A palavra-cruzada.

Noite passada Ricardo Amorim quebrou a perna na partida de futebol, isso não vai virar notícia fora da família e do círculo social que ele frequenta. Apesar de ser um perna de pau nato, Ricardo quis participar da pelada dos colegas de trabalho. A partida rola toda quarta depois do expediente, mas dessa vez  ele se deu mal. Levou Lucas,  o filho, para assistir o jogo. Luquinha, que não liga pra bola nem nada – afinal, odeia aquela gritaria que os adultos fazem quando um bando de marmanjo resolve correr atrás de uma bola na TV -  se distraiu com um besourinho de pata quebrada passeando na arquibancada vazia do ginásio alugado quando ouviu um grito e viu o pai caido no chão.  Foi uma topada de frente com Borges Moreno, o truculento tomador de café da seção de finanças da empresa. Borges saiu numa boa, Ricardo teve uma fratura no fêmur.

Ricardo amanheceu no hospital com a perna esticada, suspensa por um cabo. O motqueiro entregou as primeiras edições do jornal do dia e Ricardo se alegrou em saber que seria um dos primeiros da cidade a resolver o jogo de palavras cruzadas. Sua esposa o buscou de carro, ele não quis conversa, ficou resolvendo o jogo. Teve uma facilidade maior do que o usual para resolver o jogo de palavras daquela manhã. Quando chegou em casa se deu conta de que faltava uma palavrinha final, a legenda dizia: “Músculo de ação involuntária”.

“Músculo de ação involuntária… quatro letras. Que diabo é isso? Já tentei de tudo… mas peraí… peraí… é liso. é liso! Semana passada eu procurei no livro de ciências do Luquinha! Peraí porra! Eu já fiz essa cruzada antes! Eu já resolví essa porcaria, por isso tá tão fácil”. Ricardo usou o telefone do hospital:
_Redação, bom dia.
_Alô. Quem é que cuida das diretas ai?
_Diretas, o senhor pode ser mais específico por favor?
_Das diretas, palavras cruzadas, isso aí.
_Um minuto.

Espera, som de telefones tocando, gente falando alto, uma TV transmite o jornal do dia.

_Rodrigo do caderno de cultura, bom dia.
_Opa, você é o responsável pelas palavras cruzadas?
_Sou eu sim.
_Rodrigo, o negócio é o seguinte, eu tava vendo aqui, a cruzada de hoje está igual a de quinta feira da semana passada, pode conferir, eu resolvo todo dia. Eu só percebi quando resolvi a última palavra. Estou ligando pra comunicar o erro.
_Obrigado por avisar senhor. Isso não vai tornar a acontecer, deve ter sido algum erro no momento de escanear o arquivo, ou na comunicação interna. De qualquer modo, obrigado pelo aviso.

Ricardo desligou o telefone com a consciência limpa: “Fiz meu papel de cidadão”. Ele estava um pouco bravo de início, pois queria novos desafios na palavra cruzada, mas reparou que fez na verdade um verdadeiro favor ao jornalista.

Enquanto isso, Rodrigo, o estagiário de jornalista da redação começou a roer as unhas de nervosismo.”Meu Deus! Não credito que eu errei! Não acredito que eu errei! Vou ser crucificado! O que eu fiz de errado?”

E Rodrigo começou a lembrar de Jarbas, o sujeito mal humorado, carioca, que trabalhava no departamento de comunicação da empresa que envia o jogo de palavras cruzadas semanalmente para o e-mail do jornal. É um serviço feito às coxas porque Jarbas sempre envia jogos repetidos e Rodrigo tem a tarefa de descobrir o que é repetido e o que é pode entrar. Quando tem um jogo de cruzadas repetido nos últimos seis meses, Rodrigo entra em contato com o carioca mal humorado e pede que ele envie outro jogo. O Carioca sempre reclama, fala que não está repetido coisa nenhuma, Rodrigo pela o jornal do dia que estava repetido e manda a prova cabal, aí sim Jarbas envia um jogo novo e não repetido. “Carioca tanga frouxa, ele repetiu o jogo e eu nem ví!”.

E poucos segundos se passaram quando tocou novamente o telefone. Dessa vez era um velho senhor aposentado, estava muito irritado e gritava: “Isso é um absurdo! Isso é um absurdo! Vocês estão publicando palavras cruzadas repetidas! Eu assino jornal pra que? Para me enviarem coisa repetida? Isso é um absurdo!”. Rodrigo começou a pingar de suor. Conforme as primeiras horas da manhã foram se passando o volume de telefonemas cresceu bruscamente na redação inteira. Todos cadernos da redação recebiam ligações de reclamação: cidades, política, esportes, mundo, brasil. E o culpado era um só: O estagiário de cultura, o pobre Rodrigo. Algumas ligações eram redirecionadas para o ramal dele. Logo a editora de sua seção apareceu para uma conversa particular: “Rodrigo, o que aconteceu? Como você foi cometer um erros desses? O que foi que você fez Rodrigo!”. Toda a editoria de redação de cultura o conhecia. Ele era visto com olhar de reprovação.  “O estagiário burro que repetiu as palavras cruzadas”. O dia passou daquele jeito, com ligações nervosas, raivosas, iradas, gente de toda brasília, e até algumas pessoas de outros estados que assinavam o jornal a distância. Por último, algum leitor mais atrevido descobriu o telefone do diretor geral de redação e reclamou diretamente com ele: ”O seu jornal cometeu um erro básico! Está repetindo as palavras cruzadas! Isso é um jornaleco! Um jornaleco! Um mequetrefe!”. O diretor geral procurou o nome do responsável e teve uma palavrinha com o estagiário Rodrigo.Um fotógrafo aproveitou sua lente de alto alcance e aproveitou para documentar o mico da vez.

O estagiário não foi despedido, mas o erro repercurtiu, prestes a virar humilhação. Rodrigo não continha o suor, as idas ao banheiro para se acalmar e os copos de água fresca. Quando o expediente de Rodrigo acabou, ele deu no pé, mas sua foto circulou os e-mails de toda a redação: “O estagiário que repetiu as palavras cruzadas”. Os jornalistas passaram a noite fazendo piadas. O desenhista fez até uma charge do pobre coitado, no desenho Rodrigo aparecia enforcado, a corda estava pendurada na alça da linha do jogo de palavras cruzadas.

Na manhã seguinte o chefe de redação tinha uma reclamação do próprio dono do Jornal: “De ontem para hoje 30% das assinaturas foram canceladas, o que aconteceu?”, o dono do jornal estava enfurecido. “Foram as palavras cruzadas…”, respondeu o chefe de redação. “Como assim as palavras cruzadas? Qual é a importância desse joguinho diante do nosso jornal?”, o dono do jornal ainda não se tocou, mas importância é 30% das assinaturas e risco de cair ainda mais se o erro se repetisse, as palavras cruzadas carregam o jornal nas costas.

Alguém perguntou, “então porque as pessoas não comprar logo aqueles livros cheios de palavras-cruzadas?”, e o estagiário Rodrigo é o único que saberia responder, porque ele já atendeu ligação de todo tipo de fanático por palavras cruzadas (e acredite, não são poucos): “Eles preferem assinar o jornal, porque recebem o desafio diário, algo que possam resolver em um dia, com o bônus de que parecem intelectuais, quando na verdade estão apenas resolvendo o jogo de erros, lendo horóscopo e não se informam de nada”.

. “O que aconteceu pelo amor de Deus?”. O editor geral levou o dono do jornal até a editora de cultura e ela corajosamente assumiu a culpa do estagiário. O dono do jornal sabia que a culpa não era dela, por isso não tomou nenhuma medida, mas voltou para casa desesperado: “30% por cento dos assinantes… meu deus… 30%”.

Na manhã seguinte, quando Rodrigo veio trabalhar, sua entrada foi precedida de olhares que o acompanharam silenciosos até que chegasse a seu lugar. Ele sentou-se e alguns risos contidos escaparam de algumas das mais de 100 bocas ali presentes. O jornalista colega de bancada apertou a mão dele: “Tenha calma, seja forte”. Rodrigo leu as centenas de e-mails que circularam escrachando seu nome durante toda a noite. O motivo de piada da redação. A caricatura estava parecida até… Tinha aquelas orelhas grandes e o cabelo crispado. A legenda da foto dizia: “Vergonha!”

Alguém desenhou chifres com uma caneta vermelha sobre a caricatura. Rodrigo permaneceu calado até o fim do expediente. Foi embora e nunca mais voltou na redação, desistiu da carreira de jornalista e tomou raiva de qualquer ser humano que tenha como passatempo resolver palavras cruzadas: “São loucos! Insanos com tendências destrutivas!”

O jornal permanece na ativa, e com o tempo recuperou seu prestígio e credibilidade. Hoje o funcionário mais bem pago da redação é sem dúvida o profissional  que cuida das palavras cruzadas, os jornalistas tomaram consciência de que não são assim tão importantes, afinal, não é de jornalismo que vive um jornal.

2 Respostas leave one →
  1. 2009 Janeiro 23

    Se fores indispensável, nunca serás promovido… ou despedido!

  2. 2009 Outubro 23

    um bom filme! se incorporar nele elementos da cidade… roteirão!

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